O Lado Escuro da Meia-Noite. - Espaço da Fé

Espaço da Fé

Uma mensagem de fé e esperança para sua vida.

20 de setembro de 2017

O Lado Escuro da Meia-Noite.

Desde o tempo em que eu era criança, meus pais me ensinaram a crer em Deus e a conhecê-lo. No entanto, à medida que crescia, fui aprendendo que conhecer a Deus e ser um crente professo não significava estar sempre livre de problemas e sofrimentos.
Aliás, houve uma época em minha vida quando tive a impressão de que Deus me abandonara totalmente. Aconteceu durante a Segunda Guerra, quando eu estava com apenas vinte anos. AlIen, meu noivo, tinha vinte e um. Servia na artilharia, na divisão denominada Timberwolf. Também era crente, e tínhamos feito o compromisso de nos unirmos, e de amarmos sempre a Deus.
Quando ele partiu para a guerra na Europa, uma parte dele ficou comigo. Deveríamos casar quando ele voltasse. E orávamos para que a guerra terminasse logo.
Mas na Batalha de Bulge ele foi mortalmente ferido.
Não existem palavras que possam expressar a agonia que senti. Desde o início, desde o primeiro dia em que nos conhecemos, ligamo-nos tanto um com o outro, que minha impressão era de que sem ele a vida terminaria para mim. Não conseguia entender como um Deus de amor pudesse me submeter a tal sofrimento.
Na noite em que chegou a notícia da morte dele, caía uma chuva pesada, sombria. Incapaz de conversar com quem quer que fosse, vesti minha capa, pus o chapéu, e sai a caminhar sem rumo, sob a chuva, tentando libertar-me daquela terrível sensação de perda, de desespero. Mas não conseguia.
Não sei por quanto tempo andei, nem aonde fui. Mas quando dei comigo, estava debruçada sobre a ponte do rio que cortava nossa cidadezinha. Era uma velha ponte móvel, com uma guarita na entrada, onde ficava o manobreiro que a elevava a fim de dar passagem a embarcações. Sabia que ele estava ali, mas tinha certeza de que não podia me ver, em meio à escuridão e à chuva.
Inclinei-me sobre o parapeito e olhei para baixo, para as águas revoltas, que mal podia avistar ao clarão difuso das luzes da cidade. Eu sempre vivera para Deus, procurando fazer sua vontade em tudo, e agora Ele me traíra. Ah, se eu pudesse simplesmente passar sobre o parapeito e cair na água escura... o êxtase do esquecimento... ficaria afinal livre daquela dor. A agonia do afogamento não duraria mais que um breve instante — nem de leve se comparava com a angústia que agora me rasgava o coração. O Allen, pensei, Allen, Allen...
Não ouvira nenhum ruído, mas, de repente, senti uma mão sobre meu braço.
— Vamos sair dessa chuva, disse o manobreiro em voz branda.
Meio entorpecida, deixei que me conduzisse para a guarita. Fez-me sentar numa das duas cadeiras, e serviu-me um pouco de café da garrafa térmica. Achava-me possuída, dominada pela dor; sentia-me como se fosse a própria dor personificada.
— Está uma péssima noite para sair, observou ele.
Tinha tirado o chapéu, mas não o reconheci. Não era um dos manobreiros que regularmente ficavam ali. Era um homem de baixa estatura, de idade indefinível, e seus olhos — os mais azuis e profundos que eu já vira — tinham uma expressão bondosa, compassiva. Nunca o vira antes, mas senti que algo vinculava o espírito dele ao meu.
Comecei a chorar, e ele ficou sentado ali, do outro lado da mesinha, sem falar nada. O mais curioso, porém, era que seu silêncio não me parecia estranho. Ele também não me parecia um estranho.
A alguma distância rio abaixo, soou três vezes o apito de uma embarcação. O homem pôs-se a manobrar o mecanismo que elevava a ponte. O barco passou e em seguida ela foi recolocada no lugar.
Meus soluços já haviam acalmado, e encontrei-me falando com ele sobre AlIen, abrindo o coração para ele, como se o conhecesse a vida toda. Quando terminei, sentia-me esgotada, exausta, mas aquela dor aguda, insuportável do sofrimento desaparecera.
— Compreendo seu sofrimento, disse ele com os olhos fixos em meu rosto.
Em seguida, segurou-me as mãos.
— Pai, murmurou, vem ao encontro da tua filha.
Ficou vários minutos com a cabeça inclinada, em oração silenciosa. Depois disse:
— Venha, irei com você até o outro lado da ponte. O Senhor vai ajudá-la a vencer esta situação. Lembre-se disso.
Voltei para casa. Ainda sofria, mas aquele terrível desespero havia abrandado. Agora sabia que Deus não me tinha abandonado. Senti que já não me achava sozinha.
Alguns dias depois, fui até o rio para conversar com o manobreiro. Queria dizer-lhe como estava aprendendo a suportar melhor a morte de Allen, e agradecer-lhe pelo que fizera. Mas ele não estava lá. Um outro homem estava de serviço, e descrevi-o para ele.
— Não sei a quem está-se referindo, senhorita, disse ele. E olhe que conheço todos os manobreiros que trabalham aqui.
— Foi aquela noite que choveu muito, insisti.
— Sinto muito, mas não sei quem estava de serviço àquela noite.
Nunca consegui descobrir quem era aquele homem, e sei que nunca o conseguirei.
Mas sei Quem foi que o mandou a mim.

- Irene J. Kutz, Conte Comigo Deus.
Fonte:Aqui

DEUS ESTÁ CUIDANDO DE VOCÊ.

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